Nenhum outro orixá
causa tanta polêmica quanto Exú. Existe muita desinformação
e falta de conhecimento a seu respeito, inclusive por parte
de muitos babalorixás do Candomblé.
O sincretismo entre os orixás e santos católicos é
impossível, pois essa associação ocorreu numa época em que
as pessoas foram impossibilitadas de cultuar seus orixás,
devido à proibição da classe dominante. Os escravos
escondiam os assentamentos embaixo das imagens católicas,
numa tentativa de preservar as suas tradições. Por isso, a
associação de Exú com o diabo, que existe em outros cultos,
é uma forma ridícula de tentar denegrir a imagem desse
orixá.
Exú é um orixá muito importante e foi o terceiro elemento
criado diretamente por Olorun, com a mesma matéria que seria
usada, mais tarde, para a criação da Terra e das criaturas.
Nasceu para ser um comunicador, fazendo a ligação entre
todos os orixás e os seres criados.
Exú é sempre reverenciado em primeiro lugar, antes de
qualquer outro orixá, para que todas as oferendas e
obrigações cheguem ao seu destino. Sua função é a de
intermediário, ou elemento de transição, entre o céu (orun)
e a Terra (aiye). É ele quem carrega todos os ebós para os
lugares designados, mas isso, ao contrário de ser uma função
subalterna, é essencial para promover a limpeza de toda
energia negativa. De nada adianta oferecer um banquete
completo para um determinado orixá, se Exú não for
devidamente reverenciado para ser o portador da mensagem que
está contida na oferenda.
As funções de Exú são muitas, e todas de extrema importância
para o equilíbrio do universo, como, por exemplo,
estabelecer a comunicação entre nós, seres humanos, e o
nosso orixá ou protetor particular. Todos nós temos um Exú,
que é individualizado, com suas formas, ou qualidades, bem
definidas.
Todos têm Exú, mesmo aqueles que o tratam como demônio. Sem
ele, não existiria vida, evolução, movimento, crescimento,
dinamismo; enfim, estaríamos completamente estagnados e sem
rumo.
Exu é o guardião de todas as passagens, inclusive entre o
céu e a Terra, e das porteiras que existem em nosso mundo. É
muito importante que ele fique guardando a entrada, para não
deixar passar influências negativas e pessoas maléficas que
possam nos prejudicar. Alguns babalorixás evocam o orixá Exú
para render-lhe homenagem, mas, logo em seguida, pedem que
ele vá embora para não atrapalhar as cerimônias sagradas. O
que se deve fazer é pedir que ele fique guardando a porta de
entrada do barracão para impedir a entrada de eguns e das
oxorongás.
Não apenas os seres humanos, mas todos os seres vivos do
mundo, têm o seu Exú, assim como todos os orixás (com
exceção de Iroko), e todos os presságios, ou Odús do jogo de
Ifá, e até mesmo Exú, têm seu próprio Exú.
Esse orixá não tem nada em comum com alguns rituais em que o
sacerdote usa longas capas pretas, como as do conde Drácula.
A pessoa reage como se estivesse incorporada por um espírito
terrível e vingativo, fazendo trejeitos e vociferando coisas
hediondas.
Um outro desrespeito, ou equívoco, que se comete contra esse
orixá é o fato de associá-lo aos malandros de rua, cafetões
e pessoas sem caráter, vestindo ternos brancos, gravatas
vermelhas, cartolas e bengalas. Existem também as mulheres
que se vestem com roupas de cabaré, usando piteira e taças
de champanhe. Esses tipos de roupas e atitudes não pertencem
à cultura de Exú. Exú é um ser encantado que tem como
características a astúcia e a perspicácia, sabendo
exatamente como achar os pontos fracos dos seres humanos, e
isso não tem nada a ver com malandragem.
Exú é um orixá que conhece o íntimo do ser humano porque foi
criado do mesmo material que nós. Ele sabe tudo o que nós
precisamos para viver, como trabalho, dinheiro, moradia,
amor, sexo, etc. Ele está intimamente ligado a nós e ao
nosso protetor; por isso, em determinadas situações e
problemas, nós podemos recorrer diretamente a Exú, para que
ele nos abra as portas e limpe nosso caminho dos obstáculos.
Toda casa de Candomblé reserva determinados dias por ano
para prestar obrigações a esse orixá, tanto para o Exú de
nação, como o do babalorixá e o de cada iniciado que já
tiver assentado o seu. Nessas ocasiões, deve-se dar
corretamente as oferendas sagradas para cada uma das formas
ou qualidades de Exú reinantes nesses terreiros, ou seja,
não realizar uma única oferenda para todos os Exús
coletivamente, como fazem muitos babalorixás. Cada um tem
sua preferência, ou, como dizemos no Candomblé, cada Exú
come de uma determinada maneira. Portanto, não se pode dar
uma comida comunitária para essas qualidade do mesmo orixá.
Isso causa muita "quizila" nas casas que agem desta forma,
desencadeando um processo inevitável de desagregação do axé
(força, poder), além de uma crescente desunião entre os
participantes, devido à falta de comunicação e harmonia. É
preciso ter muito conhecimento sobre esse orixá para
alcançar suas graças e não desrespeitá-lo a todo momento
Exú é muito importante no oráculo de Ifá, revelando os
mistérios de cada Odú e de todos os orixás. Orunmilá, que
recebeu dele o oráculo divinatório, é um orixá fun-fun, e a
ele está intimamente ligado, com muita harmonia. Portanto,
não existe "quizila" (espécie de incompatibilidade) entre os
orixás fun-fun (branco) e Exú, ou com os orixás que carregam
o vermelho ou o preto. O que existe é um respeito com as
interdições de cada um.
Uma característica marcante de Exú é ser o detentor e o
transmissor da fertilidade e da fecundação. Esse orixá cuida
da parte sexual dos seres vivos e de seus órgãos de
reprodução. Nas diversas formas de representar esse orixá,
como estátuas e ferramentas, vemos em destaque a genitália
masculina e feminina. Algumas esculturas de Exú exibem uma
forma fálica (pênis) no alto de sua cabeça. isso, longe de
ser obsceno, é uma forma de exibir a extrema fertilidade de
Exú.
Na concepção africana, a fertilidade é importantíssima, não
só para a procriação, mas em todos os planos da existência,
como na agricultura, por exemplo. A fertilidade existente no
ser humano possibilita o seu desenvolvimento físico e
mental, aguçando a sua criatividade e poder realizador.
Um outro aspecto de Exú é a expansão constante e infinita,
que se traduz na própria evolução dos seres vivos, do
planeta e do universo. Por esse motivo, a espiral é sua
melhor representação.

A abertura dos caminhos também é de sua responsabilidade,
sendo, por isso, constantemente evocado. Ogun, que também é
o dono dos caminhos, é muitas vezes comparado a Exú, por
suas particularidades. A diferença está na criação desses
orixás. Exú foi o terceiro elemento criado diretamente por
Olorun, e Ogun nasceu de outros dois orixás, sendo um eborá
(orixá filho).
Exú, segundo a mitologia, adora inverter a ordem
estabelecida, como, por exemplo, a mulher trabalhar fora de
casa e o homem gerar as crianças e cuidar de todas as
atividades do lar. Isso serve para incentivar mudanças e
desenvolvimento. Além disso, ele é muito irreverente,
adorando resolver e propor enigmas. Caminha no tempo e
espaço com tranqüilidade, buscando coisas no passado,
presente e futuro; por isso, é o detentor do oráculo
divinatório, juntamente com Orunmilá.
As diferenças físicas que existem entre todos os seres,
principalmente os humanos, é um atributo de Exú; caso
contrário, seríamos exatamente iguais. A impossibilidade de
comunicação entre os povos num mesmo idioma também se deve a
Exú.
As dezesseis formas mais conhecidas são: Yangí, Âgbâ, Igbá
Ketá, Odarâ, Osijê, Oba Babá, Enú Gbarijó, Elégbará, Bará,
Okôtô, Elérù, Odusô, L’onan, Ol’Obé, El’Ebó e Alafia.
Exú sempre foi o
mais alegre e comunicativo de todos os orixás. Olorun,
quando o criou, deu-lhe, entre outras funções, a de
comunicador e elemento de ligação entre tudo o que existe.
Por isso, nas festas que se realizavam no orun (céu), ele
tocava tambores e cantava, para trazer alegria e animação a
todos.
Sempre foi assim, até que um dia os orixás acharam que o som
dos tambores e dos cânticos estavam muito altos, e que não
ficava bem tanta agitação.
Então, eles pediram a Exú, que parasse com aquela atividade
barulhenta, para que a paz voltasse a reinar.
Assim foi feito, e Exú nunca mais tocou seus tambores,
respeitando a vontade de todos.
Um belo dia, numa dessas festas, os orixás começaram a
sentir falta da alegria que a música trazia. As cerimônias
ficavam muito mais bonitas ao som dos tambores.
Novamente, eles se reuniram e resolveram pedir a Exú que
voltasse a animar as festas, pois elas estavam muito sem
vida.
Exú negou-se a fazê-lo, pois havia ficado muito ofendido
quando sua animação fora censurada, mas prometeu que daria
essa função para a primeira pessoa que encontrasse.
Logo apareceu um homem, de nome Ogan. Exú confiou-lhe a
missão de tocar tambores e entoar cânticos para animar todas
as festividades dos orixás. E, daquele dia em diante, os
homens que exercessem esse cargo seriam respeitados como
verdadeiros pais e denominados Ogans.
Dia da semana:
segunda-feira.
Cores: vermelho e preto.
Gêge: nesta nação denomina-se ELEGBA – BARÁ.
Domínios: caminhos, cruzamentos, alto das montanhas, etc.
Oferendas: padê, inhame com dendê, piquiri, etc