A "Mãe Terrível" e a
ameaça a Câncer
Uma das mais antigas imagens de começo e recomeço da vida, como
uma só unidade, é o Ouroboros, ou universo serpentino, a
serpente que engole a própria cauda, sendo simultaneamente
começo e fim de si mesma; ela é a representação do Todo, que
para a mente infantil e para o "primitivo’ parece andrógino,
homem e mulher ao mesmo tempo, uma vez que o seu mundo inicial
se limita e se basta em "papai" e "mamãe".
É desse Todo que fazem parte as imagens arquetípicas do Pai
Divino, que continuamente dá vida e inventividade à sua
criatura, e da "Mãe Terrível", que tenta de todas as maneiras
evitar o completo nascimento de sua criação.
Nesse par Pai Divino - "Mãe Terrível", ambos os pólos parecem
fazer parte da mesma percepção que o inconsciente profundo
registrou do processo da vida: o inconsciente coletivo é pai e
mãe ao mesmo tempo e é dele (e dos mitos ali constelados ou
representados) que nascem as definições futuras a questões
relativas a essas duas figuras parentais e à forma pela qual a
criança perceberá ambos futuramente, de acordo com os seus
filtros de leitura de mundo.
Afinal, por ser um signo regido diretamente pela Lua (símbolo
central da imagem materna na carta astrológica natal), Câncer
possui uma emocionalidade quase irresistível e exige como
principal tarefa de integração interior ou individuação a
necessidade de resgatar a própria identidade do regaço materno.

Da "Mãe Terrível", temos na mitologia hindu a figura milenar de
Kali: uma mulher sentada, com oito braços nas costas (qual uma
aranha), amamentando uma criança com a mão direita enquanto
devora outra criança com a esquerda.
Símbolo perfeito da mãe que alimenta fisicamente e nutre, ao
mesmo tempo em que impede o pleno desenvolvimento de
individualidade da criança que é alimentada, essa imagem aparece
em inúmeros mitos revestida de formas diferentes (uma delas, bem
mais moderna, é a da madrasta de Cinderela ou a da Bela
Adormecida, que se sentem ameaçadas pela juventude e jovialidade
da enteada e tramam o seu "adormecimento"). Entretanto, há uma
figura mitológica grega que parece representar mais de perto a
"Mãe Terrível" que perpassa a vida de todo canceriano,seja homem
ou mulher: a deusa Hera e o caranguejo que vivia no pântano da
Hidra de Lerna, que nos remetem diretamente aos doze trabalhos
de Hércules.
Enfrentar a Hidra, um monstro de muitas cabeças que habitava no
pântano de Lerna, foi o segundo dos "doze trabalhos" que
Hércules realizou, todos por inspiração direta de Hera, que o
odiava mortalmente.
Zeus se apaixonara por Alcmena, prometida de Anfitrião, rei de
Tebas, e através dela resolvera dar a essa cidade grega um herói
como jamais existira.
Para isso, sabedor da fidelidade de Alcmena, "travestiu-se" de
Anfitrião, que estava a guerrear, e teve com ela três noites de
amor, engravidando-a de Hércules; a seguir, com o retorno do
legítimo prometido e após ter se casado com ele, Alcmena
engravidou de Íficles.
Nasceram, assim, dois gêmeos. Não feliz com isso, Zeus tramou a
imortalidade de seu filho mortal preferido: adormecendo Hera,
fez com que a criança sugasse o seio da deusa. A despeito de a
deusa ter acordado e repelido Hércules, borrifando longe o
próprio leite e dando origem, com isso, à Via Láctea, o menino
tornara-se imortal. E isso, Hera nunca perdoou.
Lançou contra Hércules a maldição da raiva e da demência, e ele
acabou por matar os próprios filhos e a esposa; a seguir, já
lúcido, Hércules consultou o Oráculo de Delfos sobre como expiar
tão bárbaro crime, recebendo como resposta a servidão ao primo
Euristeu.
E este, por sua vez, sob mando de Hera, deu-lhe por tarefa os
doze trabalhos (dos quais se supunha não sairia vencedor), entre
os quais o enfrentamento da Hidra de Lerna.
Na verdade, os doze trabalhos representam a longa série de
tarefas que o Herói terá de executar a contento para, depois de
todas, renascer um homem novo. Simbolicamente, segundo o
mitólogo francês Paul Diel, as múltiplas cabeças do monstro de
corpo de serpente configuram os vícios múltiplos, nos quais se
prolonga o corpo da perversão, a vaidade.
Vivendo num pântano, a Hidra é particularmente caracterizada
como símbolo dos vícios banais.
Enquanto o monstro viver, enquanto a vaidade não for dominada,
as cabeças, símbolos dos vícios, renascerão, mesmo que por uma
vitória passageira se consiga cortar uma ou outra.
Para vencer o monstro, Hércules usa a espada, arma de combate
espiritual, conjugada ao archote, que cauteriza as feridas, a
fim de que, uma vez cortadas, as cabeças não mais possam
renascer. O archote simboliza a purificação sublime.
Acontece que - e aqui encontramos nosso crustáceo - no pântano
de Lerna habitava um imenso caranguejo, enviado por Hera, o qual
investiu contra Hércules pelas costas no momento mesmo em que
ele enfrentava a Hidra, "pinçando-o" pelas ancas e pelos pés. O
Herói conseguiu matá-lo e, em seguida, derrotar a Hidra.
O episódio nos mostra a raiva da matriarca contra a
possibilidade de independência e identidade individual de sua
criatura; daí a batalha para livrar-se da mãe ser tão constante
na vida dos cancerianos - uma batalha que sempre parece maior do
que é realmente, uma vez que a figura materna representa, para o
inconsciente mais profundo do canceriano, a unidade ourobórica
todo-poderosa que detém os destinos de si mesma e de cada
elemento da criação (aquela unidade Pai Divino -"Mãe Terrível"
que vimos há pouco).
Na vida do canceriano, o pai está com freqüência ausente
(viagens, serviço etc.) e a mãe é percebida como o único pólo de
poder no lar, razão pela qual a criança mal consegue
apropriar-se do em geral
grande poder criativo paterno; geral grande poder criativo
paterno; mais ainda: não raro a mãe da canceriana disputa com
ela a primazia pelo poder feminino no lar, obrigando-a a
"ocultar-se de si mesma".
Assim, essa vivência infantil e aquele padrão mítico emprestam à
mãe uma dimensão que ela muitas vezes não possui, o que explica
o "complexo materno" encontrado no canceriano (seja ele homem ou
mulher): a cada nova relação vem à tona a busca do "útero
materno", a busca de quem "cuide" dele, com manifestação de
comportamentos infantilizados que se chocam contra a aparente
liberdade realizadora da pessoa - ao fim e ao cabo.
Ela está em busca de libertar-se do pesado sentimento de
isolamento e separatividade que representou a saída do útero,
mas tentando sempre retornar a ele.Muitas vezes esse padrão
duplo - o monstro sendo enfrentado e o caranguejo
desestabilizando por trás - é vivido projetivamente e
encontramos a relação típica na qual o parceiro, ao mesmo tempo
em que parece apoiar as tarefas de crescimento do canceriano,
"sabota-o" pelas costas nos momentos mais difíceis. Ou
vice-versa.
Entretanto, temos de nos aproximar também de outras figuras
mitológicas para ampliar o entendimento do profundo substrato
mítico de Câncer; para isso, devemos ver de perto o escaravelho
sagrado egípcio e a deusa grega Tétis, deusa dos mares e
oceanos, de onde toda a vida surgiu.
O escaravelho, que já ocupou o lugar do caranguejo neste signo
do zodíaco (assim como a Águia fora o símbolo mais antigo do
signo de Escorpião), era considerado símbolo da perpetuidade da
vida pelos egípcios, dado o fato aparente de "renascer" de uma
bolinha de terra.
Na verdade, eram pequenas bolas de terra e esterco, nas quais o
inseto depositava suas larvas, que cresciam com o calor da
fermentação do esterco.
O fato de o escaravelho rolar a bola de um lado para outro, após
o que a vida surgia, implicou a comparação com a passagem do
círculo solar de um lado para o outro do horizonte, graças ao
que a vida se manifesta em sua plenitude, levando à sua imediata
associação com o deus Sol egípcio, "pai" de toda a criação.
A outra figura mitológica, Tétis, parece explicar diretamente
muito comumente encontrada no canceriano de a capacidade de
representar as imagens do inconsciente coletivo de maneira
criativa.
A deusa, que havia recebido a profecia de que um filho seu seria
muito maior do que qualquer deus, foi impedida por Zeus de
desposar uma divindade: ela só poderia ter como esposo um
mortal, homem comum.
Em outras palavras, somente depois de ter aprendido a canalizar
através do Ego seus imensos poderes de criação e transformação,
próprios de seu interior inconsciente oceânico, é que o
canceriano se realizará.
Porque Tétis nos aproxima mais uma vez da "Mãe Terrível". De
Peleu, Tétis concebeu Aquiles, o grande herói da Guerra de
Tróia.
Para impedir que Aquiles se expusesse a essa guerreiro, Tétis o
vestiu de mulher, pois havia a profecia de que Aquiles teria uma
vida curta e cheia de glórias ou uma vida longa mas inglória:
Tétis, "Mãe Terrível", preferiu a segunda hipótese.
E assim, às vezes, o canceriano prefere ficar no colo da mãe em
vez de libertar seu imenso potencial criativo; outras vezes,
fica à espera de que alguém venha realizar projetivamente o seu
próprio potencial.
Por isso, a separação da mãe é sempre um enorme rito de passagem
na vida do canceriano, marcando definitivamente seu segundo
nascimento e, talvez, o primeiro de sua real individualidade.
Mas enquanto não for feito, assim como Aquiles o fez e ganhou
imortalidade ao morrer na batalha decisiva da Guerra de Tróia, o
canceriano continua a buscar o útero do qual foi separado -
mantendo-se impedido, dessa forma, de transcender essa busca e
aproximar-se dos dons efetivos de criatividade que herdou do Pai
Divino.