Poderíamos começar
nosso mergulho no mito escorpiano através da figura de um dos
maiores caçadores de toda a mitologia grega: Orion, o que já nos
explicaria a habilidade de pesquisa e a persistência da pessoa
nascida sob este signo.
Entretanto, isso ainda será pouco para abranger a vastidão e a
profundidade da mescla desta psique com mitos ligados à
sexualidade e à raiva. Em todo caso, iniciemos por ver esse
herói.
Filho do deus Possêidon, Orion era um gigante - como, aliás,
outros heróis: Hércules, Teseu, Aquiles e Aristômaco, entre
muitos outros. Dado o seu imenso apetite sexual, tentou um dia
violar a própria deusa Ártemis, deusa da guerra e da caça, e
virgem eterna, filha de Zeus e Leto.
A deusa, para castigá-lo, mandou um escorpião gigantesco
morder-lhe o calcanhar, matando-o instantaneamente. Pelo serviço
prestado a Ártemis, o escorpião foi transformado em constelação
e passou a simbolizar a raiva da mulher por ter sido ameaçada de
estupro, ou em outros casos, como veremos à frente, por ter tido
sua oferta afetiva e sexual rejeitada.
O escorpião, assim como a aranha que está na figura de Kali a
serpente vista no Ouroboros e o caranguejo que vivia no pântano
de Lerna, também simboliza os processos inconscientes da mente
profunda, dedicados a manter ativas as funções corporais mais
básicas de sobrevivência e reprodução.
Todas, de alguma maneira, representam a "Mãe Terrível", que se
insurge contra a tentativa de sua criatura de escapar do reino
do inconsciente corporal e adentrar o reino do incorpóreo
espiritual.

Trata-se de uma batalha que temos, todos, de enfrentar algum
dia; entretanto, no caso do escorpiano, o confronto entre o
mundo instintivo e o reino espiritual parece ser cíclico por
toda a sua vida, donde o "tormento de alma" e a força emocional
transformadora (ou arrasadora) que as descrições mais populares
atribuem a este signo.
Essa força emocional reside no mais profundo inconsciente do
escorpiano e buscá-la requer muita coragem e obstinação, além de
uma fina intuição e muita sensibilidade (outros atributos do
signo), assim como Perseu precisou tê-los para cortar a cabeça
da Medusa. Porque é nesse mito que encontraremos nosso Herói
escorpiano em sua plenitude.
Perseu era filho de Zeus e Dânae (a qual, por sua vez, era na
verdade tataraneta de Zeus); tendo sido encerrado por seu avô
Acrísio numa arca de madeira junto com a mãe, pois uma profecia
afirmava que esse menino destronaria o velho rei, foi dar às
costas da ilha de Sérifo, governada pelo tirano Polidectes e na
qual foi encontrado e criado por Díctis, um pescador muito
humilde. Cresceu e tornou-se forte e belo, nunca se afastando da
mãe e guardando-a contra todas as investidas de Polidectes, pois
o rei mantinha viva uma paixão por ela.
Entretanto, depois de ter um dia prometido a Polidectes que lhe
traria a cabeça cortada da Medusa e não ter cumprido a promessa
- feita em um momento de embriaguez, durante um jantar na casa
do rei -, Perseu. foi obrigado a fazê-lo: caso não o
conseguisse, o rei ameaçava violentar Dânae.Começou assim o
longo e profundo processo iniciático de Perseu, graças ao qual
ele se separou de sua mãe e desenvolveu seus próprios poderes,
independentes dos poderes maternos (ela, também, de ascendência
divina).Como em quase todos os mitos do Herói, este é secundado
ou ajudado em sua tarefa por inúmeros deuses, pois sua condição
sobre-humana poderia torná-lo fácil presa da hybris e colocar em
risco, assim, o sucesso de sua missão. Dessa vez, Perseu recebe
ajuda de Hermes e Palas Atena, sem os quais dificilmente teria
conseguido descobrir o caminho do esconderijo da Medusa.
Em um primeiro momento, Perseu teve de procurar as três Gréias,
entidades semidivinas que possuíam apenas um olho e um dente,
dos quais se serviam alternadamente: quando uma vigiava com o
olho, as outras duas dormiam; quando uma comia com o único
dente, as outras duas esperavam sua vez.
Ajudado por Hermes (que tinha a capacidade de não se perder na
escuridão e conhecer todos os caminhos) e por Palas Atena (com
seus dons de inteligência e coragem), Perseu teve de ir ao país
das sombras eternas, ou da noite, onde nunca chegava um raio de
Sol sequer.
Lá chegando, roubou o olho da Gréia que estava de vigília e,
barganhando sua "troca", recebeu indicações de como chegar ao
esconderijo da Medusa; além disso, recebeu o capacete de Hades,
que tornava invisível quem o usasse, um par de sandálias com
asas e um tipo de alforje ou saco, para guardar a cabeça da
Medusa.
Finalmente, recebeu de Hermes uma espada de aço e de Palas Atena
um escudo polido como um espelho.
Com esses apetrechos, dirigiu-se ao covil da górgona; esse
monstro, com o qual apenas o deus Possêidon (bisavô de Perseu)
fazia amor, tinha cobras como cabelos, presas de javali, mãos de
bronze e asas de ouro, petrificando com o olhar quem dela se
aproximasse. Fora assim transformada por Palas Atena por ter uma
noite dormido com Possêidon em um dos templos da deusa, quando
ainda era uma bela mulher, e desde então mantinha-se escondida
das vistas de todos os mortais.Lá chegando, Perseu pairou nos
ares com as sandálias aladas e não olhou diretamente o rosto da
Medusa, para evitar ser petrificado: utilizou o escudo como
espelho e, com a espada de Hermes, cortou a cabeça do monstro,
guardando-a no alforje especial que carregava.
Do pescoço cortado da Medusa nasceu Pégaso, um cavalo alado,
filho da górgona e de Possêidon, que antes não conseguia nascer
dada a raiva sentida pela Medusa, raiva que a impossibilitava de
partejar. A seguir, Perseu saiu vitorioso do covil montado em
Pégaso - para enfrentar novos desafios e retornar vitorioso à
sua terra natal.
No caminho de casa, que vinha do ocidente para o oriente (ao
encontro do Sol, portanto), Perseu passou pela Etiópia. Ali
chegando, soube que um monstro fora enviado por Possêidon para
assolar esse reino; se Andrômeda, filha real, fosse oferecida
como sacrifício, esse flagelo cessaria. Acontece que o Herói se
apaixonou pela donzela e, sob promessa de casamento, matou o
monstro com as mesmas armas que haviam derrotado a Medusa. Com
isso, Perseu dava mais um passo em seu desenvolvimento:
separação-iniciação-retorno.Entretanto, ao chegar a Sérifo,
Perseu soube que na sua ausência Polidectes tentara violentar
Dânae. Enraivecido, petrificou o rei e toda sua corte,
expondo-os à cabeça cortada de Medusa. A seguir, depois de
entregar o trono ao pescador humilde que o criara, devolveu as
sandálias aladas, o alforje e o capacete de Hades a Hermes, para
que o deus os restituísse às ninfas, suas verdadeiras guardiã, e
retornou à sua terra natal, juntamente com Andrômeda.
Vejamos agora o que esse mito nos oferece sobre o núcleo
escorpiano. Em primeiro lugar, ressalta a analogia entre o
episódio da arca de madeira lançada num rio e muitas das
passagens registradas em inúmeros mitos: Páris é exposto no
monte Ida, Édipo é deixado pendurado em uma árvore, Rômulo e
Remo são abandonados em um bosque, Moisés é lançado em uma
cestinha no rio Nilo, entre outros heróis. Todos, cada mito à
sua maneira, nos contam do Herói com "predestinação", graças à
qual consegue sobreviver e, mais tarde, cumprir sua missão; essa
"predestinação em varias mitologias, nos aponta crianças que um
dia serão responsáveis pela purificação das faltas cometidas por
sua comunidade ou família. Da mesma forma, todos esses mitos
indicam a profunda rejeição inicial sofrida pelo Herói e sua
longa luta para superá-la.
E o que se verifica na vida concreta do escorpiano não é muito
diferente: em geral, nascido logo após uma grande perda
emocional sofrida pela família, essa criança sofre uma profunda
rejeição emocional por parte de seus pais abalados com a perda
recente (de pessoa, objeto ou expectativa), nada conseguem dar
de si em termos de afeto, carinho, amor e atenção, senão o
mínimo necessário à sobrevivência física da criança.
Assim, o escorpiano constrói sua vida sobre a procura constante
de reobter o "regaço materno" que um dia lhe foi "negado". Mas
terá de afastar-se dela e buscar em si mesmo o afeto não obtido,
deixando de se submeter à mãe ou tentar imitá-la, com o que
conseguirá aliviar a imensa raiva que isso lhe causou
precocemente. Além disso, como no caso das crianças "exposta", o
escorpiano vive uma marcada diferença entre si e sua família, só
se libertando disso através do sacrifício de si mesmo e do
"renascimento" sob nova identidade.
Lembra o psicólogo Otto Walter (1969) que quando um celta estava
em dúvida sobre sua paternidade, colocava o recém-nascido sobre
um escudo enorme e punha-o a flutuar nas águas de um rio; se
essas águas empurrassem o escudo para uma das margens, a
paternidade era legítima, mas se a criança se afogasse, estava,
provado que a mulher praticara adultério, e desse modo estava
também condenada à morte.
Como os filhos nascem d’água, a arca simboliza o ventre materno,
de sorte que o abandono nas águas representa diretamente o
processo de nascimento ou de um "renascimento catártico".
Carregando em si a raiva provocada precocemente pela rejeição
sofrida, o escorpiano mal consegue encará-la de frente: assim,
terá de lançar mão do espelho fornecido pela deusa da
inteligência e da coragem (para evitar que se paralise no
momento dessa confrontação) e da espada fornecida pelo deus do
pensamento (com a qual poderá cortar o "mal assim
identificado)".Sobre culpa, admissão e expiação, cabe lembrar o
mitólogo Junito Brandão: (1986;); "O reconhecimento pode ser - e
o é, quase sempre - uma forma específica de exaltação
imaginativa: um arrependimento exagerado. O exagero da culpa
inibe o esforço reparador (...).
Não basta descobrir a falta: é mister suportar-lhe o olhar de
maneira objetiva, sem exaltação ou inibição - vale dizer, sem
exagerá-la ou minimizá-la. O próprio reconhecimento deve estar
isento do excesso de vaidade e de culpabilidade."Com esse
enfrentamento corajoso, Perseu conseguiu libertar Pégaso,
símbolo da possibilidade de "voar" entre o Céu e a Terra, qual
ponte viva entre opostos (não podemos nos esquecer de que o
antigo símbolo deste signo era a Águia). Graças a esse "parto",
Perseu conseguiu ir adiante em sua viagem de iniciação e
utilizar os poderes da Medusa, agora despojados de seu
componente maléfico, para vencer novas causas.
Do mesmo modo, como o Herói grego, o escorpiano deverá enfrentar
o monstro – "culpa raivosa" e "mágoa ressentida" - em benefício
da mulher amada (tanto faz qual seja o sexo dessa pessoa: se
homem, em prol de sua escolha afetiva; se mulher, em prol do
desenvolvimento do próprio núcleo feminino). Para isso, mais uma
vez dispõe de recursos oferecidos pelos deuses, pois somente
assim poderá redimir sua primeira figura feminina: a "Mãe
Terrível", seja ela um escorpião, uma serpente ou um peixe
voraz.
Em outras palavras, apenas enfrentando sua própria natureza
instintiva quase cega, a face escura daquela "Mãe Terrível", é
que o escorpiano conseguirá libertar e integrar seu núcleo
feminino pessoal, primeiro passo para a integração
corpo-espírito, uma possibilidade há muito tempo ansiada. Como
diz Sylvia Brinton Perera, psicóloga junguiana, (1985)
"precisamos passar por uma regressão controlada" até os níveis
da fronteira com o mundo subterrâneo da deusa escura - de volta
ao que éramos antes de termos nossa conhecida forma atual, de
volta aos níveis mágicos e arcaicos da consciência e às paixões
e ódios transpessoais que ali nos destroem e alimentam ao mesmo
tempo: é a volta à mente-corpo e aos estágios pré-verbais do
útero-túmulo, em busca do feminino profundo, da "mãe dupla" de
que fala Jung".
Mas isso não pode ser conseguido com raiva ou paixões fortes -
apenas com o auxílio da inteligência e da coragem é que o poder
"do monstro" será revertido em favor do Herói. Semidivina, a
criatura terá de ser transformada, pois nunca será inteiramente
destruída. O risco é o de a pessoa ser "tomada de orgulho pelos
poderes de transformação que possui, quando se tornará escrava
dos mesmos e perderá sua própria salvação": esta tênue linha
entre utilizar seus poderes com sabedoria e ser utilizado por
seus próprios poderes é o que separa, há milênios, o Mago do
"possuído".
Da mesma cultura medieval de onde retiramos Parsifal e a lenda
do Santo Graal podemos buscar Fausto, representante ocidental da
luta do Mago contra seu "lado sombrio", um lado cheio de
amargura, raiva e necessidade cega de poder sobre as pessoas ou
eventos que algum dia o magoaram. A figura de Fausto apaixonou
Jung, pois sua história nos relata um drama freqüentemente
vivido por aqueles que atingem as profundezas arquetípicas do
poder inconsciente - uma fronteira indistinta muitas vezes
percorrida pelo escorpiano, em sua luta contra a "Mãe Terrível":
a "venda da alma" ao "Diabo". Fausto, de acordo com o clássico
de Goethe, fez um pacto com o Diabo: em troca da vida eterna,
vivida como um momento de emoções "sem fim", e do amor de
Margarida, entregava sua alma a Mefistófeles; não conseguia
admitir que Margarida, por quem tivera súbita paixão, o
rejeitasse; mais ainda, pensava garantir dessa forma a eterna
durabilidade de suas emoções, com o que negava a fluidez da
própria vida. A atitude de cinismo com multa freqüência
encontrada no escorpiano, está profundamente mesclada a seu
próprio núcleo mítico; então, mesmo disfarçada sob um aparente
otimismo, tal atitude manifesta sua destrutividade através de
eventos projetivos na vida da pessoa, que a expõem à própria
Sombra.
E a suposição inconsciente de que a vida só vale a pena se
"parar congelada" num momento de felicidade ou raiva, faz o
escorpiano mostrar sua face possessiva e retentiva, que tantas
vezes o incomoda em sua busca de afeto. Busca essa, por fim,
geralmente vivida em momentos de forte sexualidade, emprestando
ao escorpiano esse traço tão marcadamente presente nas
descrições tradicionais: forte impulso sexual.
No fim de Fausto o bem vence; "perecendo" em sua busca de poder
e prazer e resgatando sua profunda natureza divina, o Herói
resgata seu lado feminino - que encontra, pelo amor a Margarida
-, e se integra a si mesmo e à vida. Para isso, teve de "sujar
as próprias mãos" com egoísmo, cinismo e cobiça, além de
luxúria.
Entretanto, o motivo central de sua procura é um só, amor, e é
isso o que o redime e o leva a uma longa jornada entre
sexualidade e espiritualidade.
A combinação entre essas duas dimensões humanas é bastante
difícil e delicada, razão pela qual muitos escorpianos abafam um
dos pólos e hipervalorizam o outro. Entretanto, somente através
desse "embate" e do confronto com a "Mãe Terrível" é que poderão
harmonizá-los e reencontrar sua identidade, extraída do reino
noturno de sua emocionalidade profunda e transformadora.
Porque, nesse trabalho, os poderes "mágicos" do inconsciente
emocional mais atávico serão liberados e postos à sua utilização
- para que ele faça como Perseu, que entregou o trono
recém-conquistado a um humilde pescador e voltou à sua terra
natal.