Ora nos céus, ora no
inferno.
O terceiro signo do Zodíaco nos remete diretamente ao mito de
Castor e Pólux (ou Polideuces), filhos gêmeos de Leda, esposa do
rei espartano Tíndaro.
Esses, como tantos outros gêmeos (ou mesmo apenas irmãos),
sempre representam na história da Humanidade uma
complementaridade de pólos opostos.
Na Babilônia, Inanna e Ereshklgal eram irmãs inimigas; para os
zoroastristas (religião dualista do século VII a.C.),
Ahura-Mazdâ (Ormuzd) era o princípio da luz, ao passo que seu
irmão gêmeo, Angra Mainyu (Ahriman), representava o princípio da
escuridão; no Velho Testamento, Caim e Abel desempenharam esse
papel; para os cristãos gnósticos, Emanuel tinha um irmão gêmeo,
Satanael, ambos filhos de Deus; e na mitologia romana os gêmeos
fundadores de Roma, Rômulo e Remo, simbolizaram uma vez mais
esse drama: lutando pelo poder, Remo ataca Rômulo, mas perde e
morre.
A figura do pai sempre representa a Lei, a Ordem, a Estrutura,
os Valores Civilizadores que devem ser mantidos a qualquer
preço, e cabe ao Herói desafiar esse poder que ao mesmo tempo o
castra mas o incita: será através da quebra das Leis que ele
instalará um novo regime.
De alguma maneira, assuma qual forma mítica assumir, o
mitologema "gêmeos" - representa pólos de forças positiva e
negativa combatendo-se mutuamente, de modo que a força do bem
vença - não através de meros embates externos, mas sim pelo
embate dentro do próprio ser, cuja unidade o par de gêmeos
representa.

O embate entre os gêmeos parece representar, na maior parte das
vezes, a luta do ser contra a própria Sombra, a qual é composta
pelos aspectos internos negados pelo próprio indivíduo: é o
inimigo interno, nascido e vivido conjuntamente, que nunca
poderá ser completamente superado mas com o qual o indivíduo
deverá combater sempre, pois é desse embate sem tréguas que
surge o próprio crescimento da pessoa humana.Na vida do
geminiano tal dilema se instala com maior evidência, muitas
vezes vivido projetivamente através de sócio, amigo ou irmão
(gêmeo ou não): nesse último caso,
um é amado pelos pais, representando o lado bom do par, enquanto
o outro é o "ruim" e recebe a projeção da Sombra familiar - os
aspectos da família que a própria família não aceita em si e
"despeja" em alguém, tornando-o verdadeira "lata de lixo" dos
detritos familiares... Sem dúvida, em casos desse tipo é bem
mais difícil identificar e enfrentar o "inimigo interior", mas
em última instancia é esse embate que terá de ser feito.
Vejamos os gêmeos Castor e Pólux.
Apaixonado por Leda, Zeus se transformou em um cisne e a
seduziu, ela que estava grávida de Tíndaro e que tinha se
transformado em gansa para escapar aos assédios do Deus do
Olimpo. Como resultado disso, Leda pôs dois ovos. De um nasceu
Castor e Cliterrinestra, crianças mortais, porque filhos do
próprio rei de Esparta; de outro, entretanto, nasceram Pólux e
Helena (futuro pivô da Guerra de Tróia e esposa de Menelau),
ambos filhos de Zeus e, por isso, imortais.Observe que em ambos
os pares de irmãos temos uma metade mortal e uma imortal.
Castor e Pólux eram muito diferentes, senão mesmo opostos entre
si: enquanto o primeiro era guerreiro, forte e impositivo, Pólux
era músico, delicado e sensível. Ambos brigavam muito, dadas
essas diferenças, até que Castor, envolvido em uma batalha
contra dois outros gêmeos morreu.
Pólux, coberto de dor e saudade, pediu a seu pai que
intercedesse junto ao Reino de Hades, para onde a alma de Castor
havia sido levada, de forma a que Castor voltasse a viver ou
Hades aceitasse a vida do próprio Pólux em troca da de Castor.
Castor havia morrido, e a palavra de Hades era irrecorrível;
além disso, Pólux, por ser imortal, não poderia morrer. Mas o
arranjo foi feito e os dois gêmeos receberam autorização para
viver um dia cada um, alternadamente, no Reino de Hades e nos
domínios de Zeus, a superfície da Terra: assim, enquanto Castor
estivesse vivo , Pólux desceria ao Hades, invertendo-se as
posições no dia seguinte.
E aí está o núcleo da vivência compulsiva gemimana de suas
oposições: em sua fase "mortal", desce aos infernos e convive
com a própria Sombra, ao passo que em sua fase "imortal"
compartilha dos prazeres divinos; em outras palavras, essa
pessoa apresenta forte traço de oscilação de humor, indo da
depressão à euforia e desta à depressão novamente, de modo
cíclico.
Da mesma maneira, ora comporta-se da forma mais elogiosa
possível, de acordo com os padrões da cultura em que vive, ora é
completamente insociável. Como diz a observação popular, "possui
dois rostos". Ambos os pólos tentam se destruir mutuamente,
visando a hegemonia, como que em uma tentativa do Ego de
suprimir a Sombra, reprimindo-a em benefício da persona;
apenas após haver um processo de assimilação consciente das
características de ambos os componentes intrapsíquicos, porém, é
que certa paz interna será conseguida, podendo o Ego manter a
harmonia do todo psíquico com um ou outro componente
predominando a cada momento, sem ameaçar o resultado global da
psique.
Porque se deve existir um equilíbrio entre os dois "gêmeos",
isso também é verdadeiro entre os "gêmeos psíquicos", a Sombra e
a persona. Enquanto esse equilíbrio não é atingido internamente
- e no caso dos geminianos isso é mais difícil, dada a força do
tema em sua estruturação psíquica inconsciente - um dos pólos é
sempre vivido de forma projetiva até que a pessoa se
conscientize de que a luta não é externa e, sim, interna:
enquanto ela não tiver chegado a bom termo consigo mesma, essas
lutas externas continuarão a se dar interminavelmente.
O dilema pode se concretizar através de disputas entre o lado
masculino e o lado feminino do indivíduo, entre valores
emocionais e valores intelectuais ou mesmo entre objetivos
materiais e objetivos espirituais. O perigo, entretanto, é o de
que enquanto o geminiano não encarar seu próprio "oponente"
interno, tenderá fortemente a projetá-lo em irmãos, sócios,
amigos ou mesmo um filho do mesmo sexo, combatendo-os como forma
de "combater" o seu próprio lado sombroso.
Mas uma compreensão maior do mito dos gemimanos não estará
completa se não analisarmos Hermes, deus que apresenta as mesmas
qualidades ambíguas. Nascido da união (e não, como em outras
vezes da sedução ou estupro de Zeus sobre uma mortal ou imortal)
entre este deus e a ninfa Mala (segundo algumas versões, a
própria deusa Noite, a mais "profunda" das deusas olímpicas e
representante das profundezas do inconsciente e das forças da
Natureza), Hermes é o filho mais inteligente de Zeus.
Logo depois de nascido, foi enfaixado e amarrado num salgueiro,
árvore sagrada e símbolo da imortalidade e da fecundidade;
demonstrando sua habilidade precoce em "ligar e desligar" (como
o faz todo o tempo o pensamento, na verdade), desatou-se e
mostrou sua verdadeira face: roubou parte de um rebanho de Apolo
(Hélios, para os gregos), atou folhas nos rabos dos animais -
para que eles não deixassem rastros - e sacrificou doze cabeças
aos deuses olímpicos.
Como estes eram onze, o recém-nascido havia se promovido à
condição de Imortal.
Apolo queixou-se a Zeus, este interrogou Hermes e o menino,
afinal, prometeu que nunca mais mentiria... mas que nunca
contaria toda a verdade!
A seguir, encantado com os sons da lira e da flauta de Pá que
Hermes havia criado, Apolo deu-lhe em troca um rebanho e um
cajado de ouro; Hermes aceitou o "negócio", mas, revelando-se já
um bom comerciante, pediu ainda lições de adivinhação - das
quais Apolo era o deus por excelência. Assim, o caduceu passou a
figurar entre seus atributos, bem como a arte divinatória, ambos
necessários à tarefa de pastorear ou guiar os homens.
Não tendo um lugar a ele dedicado, Hermes presidia as estradas,
as fronteiras, as encruzilhadas. E mais tarde foi alçado a
psicopompo, o acompanhante das almas ao Reino de Hades e de sua
esposa, Perséfone: gerado em uma caverna, tinha pleno domínio
das trevas, além do fato de ser condutor de homens e ter
sandálias de ouro que lhe permitiam andar depressa.
Para o romeno Mircea Eliade, estudioso de mitologia comparada e
de história das crenças e idéias religiosas. Mas de acordo com
Walter Otto (1969), outro estudioso de mitologia, "falta a
Hermes dignidade": ele se vale principalmente de astúcia e não
de força, de "mágica" e não de heroísmo.
Nesse ponto, é curioso lembrar outra versão do mito de Hermes,
que conta ser ele irmão gêmeo de Afrodite (filha de Urano), com
a qual teve um filho, Eros; por essa versão, apreendemos outra
dimensão de Hermes, qual seja, a de manter ligadas (através de
Eros) relações que têm tudo para manter-se separadas, dadas as
suas diferenças, ao mesmo tempo que certa paixão (Afrodite) por
tal tipo de relações.
Jung (1981) identificou em Mercúrio o misterioso momento em que
o inconsciente, às vezes destrutivo, outras vezes hábil,
outras ainda terrível, mas sempre ambíguo e fértil, prega peças
no ser humano; pois ser "embusteiro" era um dos principais
atributos de Hermes, bem como ser andrógino (homem-mulher) e
dupla face, visando levar o ser humano à descoberta da verdade,
sempre oculta atrás das parcialidades do pensamento.
E um deus benéfico, interessado em síntese de opostos por
comparação de diferenças e conflito entre elas; mas pode ser ao
mesmo tempo um deus terrível, por sua facilidade de argumentação
(que o geminiano utiliza para si e para conviver com os outros),
através da apresentação da realidade travestida em ilusão
conceitual.
Dessa forma, o convívio consigo mesmo só poderá resultar em
harmonia interior se a pessoa se dispuser a reconhecer sua
própria Sombra (o "inimigo interno") e a negociar com ela,
auxiliado (embora às vezes também "enganado") por Hermes, para
que não continue presa da duplicidade compulsiva em seu
comportamento e da sucessão interminável de embates projetivos
externos.