Na conquista do amor
por si mesmo, o Leão.
Duas figuras distintas, uma da Grécia antiga e outra da Europa
medieval, nos transportam ao núcleo mítico do leonino: o mito do
Leão da Neméia e a lenda de Parsifal e o Santo Graal.
Antes, um registro importante: o signo de Leão é regido pelo
Sol, o que nos aproxima imediatamente da figura do pai (o Sol é
o principal símbolo paterno na carta astrológica natal) e nos
remete à noção de criatividade infinita - como aliás o permite o
próprio Sol no desenvolvimento da vida terrestre e humana. Nesse
sentido, temos figuras leoninas perpassando toda a história
mitológica da Humanidade.
Para os egípcios, a deusa Solar Sekhmet, com cabeça de leoa, era
a responsável (com seus rugidos) por provocar sulcos na terra,
no verão, de onde germinavam as plantas, entre elas o papiro e o
trigo; para os hindus, Krishna era o Leão; para a cultura do
Extremo Oriente, Buda era o Leão dos Sákia; na cultura
judeu-cristã Cristo era o Leão de Judá; para os muçulmanos, o
Leão de Alá era Ali, genro de Maomé.
Como registra Junito Brandão, (1986) "poderoso e soberano,
símbolo solar e extremamente luminoso, o rei dos animais possui
em alto grau as qualidades e os defeitos inerentes à sua
espécie. Encarnação do Poder, da Sabedoria e da Justiça,
deixa-se arrastar, em contrapartida, pelo excesso de orgulho e
segurança, que lhe conferem uma imagem de Pai, Senhor e
Soberano.
Ofuscado pelo próprio poder, cegado pela própria luz, torna-se
um tirano, acreditando-se um protetor. Pode ser maravilhoso,
tanto quanto insuportável: nessa polaridade oscilam suas
múltiplas acepções simbólicas".

O tema leonino, assim como o ariano, parece centrar-se na figura
parenta paterna. Isto é, na batalha do Herói contra seu pai ou
do filho que busca a própria identidade através do embate com a
figura paterna, utilizando os próprios recursos.
Embate esse que, ao contrário dos signos que têm a figura do Pai
como centro de seu mito, terá de ser vencido através da
aproximação e do amor, e não das armas: somente assim o Herói
conquistará seus valores espirituais (sempre frutos do Pai) e
atingirá a transpessoalidade tão desejada. A morte do Leão da
Neméia foi o primeiro dos doze trabalhos de Hércules.
Esse leão, criado pela deusa lunar Selene ou pela própria deusa
Hera, que já vimos anteriormente, vivia numa caverna de duas
bocas durante o dia, saindo à noite para aterrorizar os bosques
da Neméia, cidade da região grega da Argólida, devorando os
rebanhos que lá pastavam.
Era relativamente invulnerável, pois Hera o dotara de tais
poderes contra flechas, maças, lanças e tacapes, que tais armas
nem sequer lhe arranhavam o pêlo.
Hércules foi à Neméia e enfrentou o leão em frente de sua
própria caverna; em um primeiro momento, esquecido da
invulnerabilidade do animal, atirou-lhe flechas: nada aconteceu,
senão assustar o animal, que se refugiou na caverna.
Então Hércules entrou nu e desarmado no covil da fera, munido
apenas de um archote para iluminar-lhe o caminho e, ao enfrentar
corpo a corpo o animal, sufocou-o, pela garganta com as próprias
mãos. A seguir, retirou-lhe a pele e com ela fez uma vestimenta
protetora, fazendo de sua cabeça um capacete. A briga de homens
contra animais é uma das mais antigas imagens míticas
arquetípicas, sendo no seu sentido mais amplo a luta do Ego
humano contra os instintos e impulsos impessoais que provem do
inconsciente; dessa batalha é que se definirá sempre o caminho
de individuação e conquista de identidade da própria pessoa.
Dessa vez, entretanto, trata-se de uma fera destrutiva, pelos
fortes impulsos emocionais de que é portadora, e não mais de um
crustáceo de sangue frio e "sem paixões", provindo dos reinos do
inconsciente profundo, como vimos no signo anterior.
O leão é uma fera domesticável e não somente vencível através da
destruição: corresponde às paixões do coração, que ficam a
serviço de seu possuidor depois de humanizadas, como Hércules
utilizou a pele do Leão da Neméia a seu favor após a vitória.
Como diz Jung no estudo da simbologia deste animal, "a forma
animal enfatiza que o rei é poderoso demais ou está revestido
por seu lado animal e que, em conseqüência, se expressa apenas
"animalescamente", isto é, de forma apenas emocional.
Emocionalidade, quando no sentido de afetos incontroláveis, é
essencialmente animal, razão pela qual pessoas nesse estágio são
tratadas apenas com o cuidado próprio de quem anda na selva ou
com os métodos que o treinador de animais utiliza em seu
trabalho". O que se verifica na vida dos leoninos: exposto ao
convívio com um pai excessivamente "ético" e "justo", o leonino
desde cedo vê punidas com severidade todas as suas fortes
reações emocionais e premiadas em excesso suas manifestações de
comportamento ético e justo.
Sacrifica-se no altar do perfeccionismo, o que explica sua
constante busca pelo "melhor", e não vive a sensação de ser
amado pelo que é - mas sempre, apenas, pelo "muito bom" que será
capaz de produzir. Dessa forma, suas emoções são mantidas no
inconsciente e se tornam verdadeiras paixões arrebatadoras e
autônomas que dominam a consciência e o comportamento, sendo
colocadas a serviço de quaisquer novas causas. Entretanto,
conhecer e "dominar" as próprias paixões (sempre uma vivência
juvenil das emoções) é passo fundamental no processo de resgate
do que de mais elevado vem do pai: o alto idealismo, cuja
manifestação errônea é a compulsão perfeccionista, e a
sensibilidade ética à justiça, cuja vivência com é a rigidez de
padrões de convívio pessoal.
Daí conviverem os três no coração do leonino, enquanto estiver
em sua fase menos madura: o idealismo exacerbado, o
perfeccionismo implacável e a preocupação ética em demasia.
Mas o Leão é fase do processo e por isso Jung (1977) o associou
à figura de Mercúrio no processo alquímico de transformação de
matéria-prima bruta em ouro, à medida que a pessoa enfrente suas
paixões no fundo da própria caverna, somente com os recursos de
que dispõe, e que as coloque a seu serviço de maneira
humanizada, isto é, em acordo com seu Ego - razão pela
qual muitos reis portavam uma coroa em forma de leão, ou
adornavam seu trono e estandarte com o animal: apenas quem
conseguiu dominar as próprias paixões pode governar homens, ao
oferecer-se enquanto exemplo.
Mas (e no caso do leonino isso é mais evidente ainda, dado o
acúmulo de soberba e orgulho desenvolvido como compensação à
rejeição paterna na infância) essa transformação só poderá se
dar através do amor e da compaixão, depois de ter aprendido a se
aceitar como se é, e a se amar pelo que se é, o que nos remete a
Parsifal e à lenda do Santo Graal, no primeiro século deste
milênio.
Von Eischenbach, poeta germânico da Alta Idade Média, escreveu
Parsifal (obra que futuramente inspirou o compositor alemão
Wagner para uma ópera com o mesmo nome), descrevendo as
peripécias de um jovem que busca encontrar o Santo Graal; esse
Graal, supostamente o cálice no qual José de Arimatéia recolheu
o sangue de Cristo durante o seu suplício na cruz, estava
perdido, e todos os cavaleiros e nobres lutavam por encontrá-lo.
Faz parte desse ciclo de lendas o mito de Artur, rei da Távola
Redonda.
Conta essa história que estava Parsifal brincando no bosque
perto da casa onde vivia com sua mãe (portanto, ainda sem pai),
quando dele se aproximaram alguns cavaleiros reais que estavam
em busca do Graal. Parsifal imediatamente quis reunir-se a eles
em sua busca e comunicou a decisão à mãe; esta quis impedi-lo,
mas Parsifal, por ter sua vida ligada ao alcance de um ideal e
não à mãe, partiu assim mesmo.
Essa partida provocou a morte dela, por tristeza, o que parece
estar presente (muitas vezes de forma simbólica) no rito de
iniciação de quase todo leonino.
Seguindo os cavaleiros, Parsifal defrontou-se (sem nenhuma razão
aparente) com um Cavaleiro Vermelho, o derrotou e passou a usar
sua armadura (como Hércules fez com a pele do leão), sagrando-se
cavaleiro. A seguir, ajudou uma jovem a atravessar um rio e dela
recebeu, como prêmio, um anel: sem dúvida, dada a simbologia da
cena, iniciava-se sexualmente. E um pouco adiante, sem esperar,
deparou-se com uma enorme extensão de água, no meio da qual um
velho pescava, mas sobre a qual não se via nenhuma ponte ou
forma de travessia. Questionado por Parsifal se ali seria o fim
de todos os caminhos, o velho pescador indicou-lhe o caminho
para o Castelo do Graal, até então algo completamente
desconhecido por Parsifal.
Para chegar ao castelo, Parsifal atravessou uma larga faixa de
terra que, mesmo fértil, estava completamente devastada e
improdutiva. Logo que chegou ao castelo, Parsifal compreendeu:
seu rei, que na verdade era o mesmo pescador que encontrara
antes, tinha sido ferido na altura do fígado (simbolicamente
associado a Júpiter, ou Zeus, e sua capacidade de mobilizar
poder criativo) e era perpetuamente mantido assim.
Naquela tarde, como em todas as tardes, quatro escravas (uma com
uma espada, outra com um cálice dourado, uma terceira com uma
bandeja prateada e a quarta com uma lança) entraram na sala onde
o rei estava e enterraram profundamente a lança na ferida do
rei, tornando a machucar seu núcleo de poder criativo e
impedindo-o de reavivar sua terra.
Parsifal observou a estranha cerimônia mas, pouco se importando
com o sentido nela implícito ou com a contínua dor do rei, foi
dormir. Ao acordar, o castelo estava deserto e Parsifal
encontrou apenas uma velha mulher, que lhe disse que se tivesse
perguntado "Para que o Graal serve?", condoído da sorte do velho
rei, teria imediatamente curado sua ferida e ao mesmo tempo dado
vida nova à terra desolada. Mas perdido na própria busca e cheio
do orgulho que ela lhe provocava, não o pudera fazer.
Parsifal saiu do castelo, este desapareceu e só reapareceria
quando ele tivesse a necessária maturidade e compaixão para
fazer a pergunta redentora.
A história prossegue e, depois de muitas aventuras, durante as
quais Parsifal vai desenvolvendo a própria capacidade de
compaixão e perdendo sua soberba, por fim o castelo reaparece e
a pergunta é feita.
Imediatamente o velho rei fica curado, a terra começa a produzir
e o rei informa a Parsifal ser seu avô.
Com isso o Castelo do Graal é entregue aos cuidados de Parsifal,
que reencontra o pai - mas agora um pai mais antigo, gerador do
próprio pai de Parsifal, e não apenas o pai carnal de quem se
perdera na infância.
Em outras palavras, o Self, símbolo do pai, motivo pelo qual o
leonino se bate tanto para encontrar a verdade!
Não mais o pai do ariano, que deve ser vencido pela confrontação
direta, nem o pai do capricorniano, que será vencido (como
veremos) através da descoberta dos limites da realidade que não
soube oferecer ao filho, mas o pai que é fonte de criatividade e
só
estava à espera de ser redimido pelo próprio filho - o qual, por
sua vez, poderá fazê-lo apenas ao aprender a se condoer e a
expor as condições mais simplesmente humanas que carrega dentro
de si mesmo, para poder realizar toda a criatividade de que é
potencialmente capaz.
Seja o Graal o que for - a causa defendida, a busca de
espiritualidade ou algum objetivo pessoal, ele está sempre à
frente do impulso leonino de busca, atraindo-o
irresistivelmente.
Que o leonino não deixe de reconhecer suas qualidades mais
humanas - emoções - na defesa irrestrita dessa causa, na busca
incansável dessa espiritualidade ou na consecução denodada desse
objetivo.
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