Libra e o equilíbrio
através do Outro . O sétimo signo nos oferece uma multiplicidade
de mitos gregos: a deusa Palas Atena, o troiano Páris e o sábio
Tirésias. Todos, cada um à sua maneira, nos levam ao núcleo
mesmo da vivência arquetípica do libriano: a necessidade de
conciliar opostos, através da valorização dos mesmos, visando
obter a harmonia final interior e exterior. Antes, contudo,
vejamos o mito egípcio de Maat, deus que “pesava a alma” dos
mortos para decidir-lhes o destino.
No ritual egípcio, quando a alma de um morto descia para o reino
de Osíris (o equivalente egípcio de Hades), guiada por Anúbis (o
equivalente egípcio de Hermes), em sua tarefa de condução das
almas, como vimos anteriormente, era submetida ao confronto com
Maat, o deus da verdade.
A alma confessava seus pecados e, depois disso, era colocada em
um prato de balança, postando-se Maat no outro prato. Se a alma
tivesse confessado toda a verdade e com se purificado, os pratos
ficavam em equilíbrio; caso contrário, o prato de Maat pesava
mais - pois a verdade sempre prevalece - e a alma era destruída.
Maat, nesse contexto, personificava a Lei, a Verdade e a Ordem.
A figura abaixo ilustra esta passagem. De forma semelhante em
termos de significados, temos a deusa grega Palas Atena. Nascida
diretamente do cérebro de Zeus, que em acesso de dores de cabeça
pediu a Hefaístos que lhe abrisse o crânio com um martelo de
forjaria, Palas Atena identifica-se com os atributos de deusa da
inteligência, da paz, das artes e dos artistas; estrategista e
apegada às soluções práticas, representa a mulher que se deixa
guiar principalmente pela razão e não por arrebatamentos
afetivos ou instintivos. Por isso, prefere a companhia masculina
(com a qual identifica, projetivamente, seu poderoso Animus),
sendo preciosa confidente e amiga íntima, a despeito de usar
muitas vezes o sexo como “ato calculado”.

Palas Atena é a tentativa constante de atingir o equilíbrio de
opostos através do julgamento racional e da valorização das
diferentes necessidades. Para Liz Greene, (1987) “Virgem e Libra
apresentam a mesma busca de harmonia e justiça, mas em
diferentes esferas”; Libra parece projetar essa visão de justiça
em uma visão bem mais ampla da vida, e isso dá a este signo as
condições necessárias para um intenso idealismo e crença na
beleza da vida. “Eu nunca senti que Libra está voltada, como as
descrições mais populares afirmam, ao amor romântico, flores e
candelabros - exceto como rituais de cortejo necessários, dentro
de uma concepção ideal. Romantismo não é uma propriedade de
Libra.
O signo é muito mais voltado a questões de moralidade e
proporcionalidade, ética e julgamento. Esse tema de moralidade é
um dos que eu mais encontrei na vida de librianos, pois parece
haver em seu coração a necessidade de conhecer a divindade que
sustém a balança do julgamento e do perfeito equilíbrio; por
isso, para que possam ter tal experiência, o constante
desequilíbrio entre extremos e a violação de leis são
acontecimentos quase necessários, dos quais o libriano não
escapa facilmente”.
Não mais o equilíbrio entre leis naturais e os acontecimentos da
vida, como vimos em Virgem, pois Libra é um dos únicos signos do
zodíaco simbolizados por um objeto humano: a Balança. Trata-se
aqui de, equilíbrio entre eventos e formas próprios dos seres
humanos, em sua forma social de cultura.
Por isso, como Platão afirmou, “não há signo mais voltado ao
bom, belo e verdadeiro”. Entretanto, os mitos de Paris e
Tirésias nos mostram outras faces do conflito vivido pelo
libriano, pois embora ele tente o tempo todo equilibrar opostos
e, assim, harmonizar da melhor forma possível os eventos, as
formas, os sons e as cores (donde a tradicional inclinação
estética libriana), os deuses que nos habitam - e a ele também –
nem sempre “jogam de acordo com as regras”.
Páris (ou Alexandre) era o filho mais novo de Priamo, rei de
Tróia, e da rainha Hécuba. Poucos dias antes de dar à luz,
Hécuba sonhou com uma tocha incendiando Tróia, e um oráculo
prognosticou que seu filho seria a ruína da cidade. Dessa forma,
Priamo mandou matá-lo, mas Hécuba entregou-o a pastores que o
criaram no monte Ida até a idade em que, voltando a Tróia,
venceu um torneio, foi reconhecido por sua irmã Cassandra e
aceito de novo por Príamo.
Nascido com o dom da diplomacia e da elegância, foi escolhido
por Zeus para decidir uma disputa entre três deusas: Afrodite,
Palas Atena e Hera disputavam o titulo de “A Mais Bela do Olimpo”
e a escolha coube a Páris, que entregaria à vencedora uma Maçã
de Ouro, um Pomo das Hespérides. Páris quis se negar a servir de
juiz em páreo divino (propondo-se, como bom libriano, a dividir
igualmente o prêmio entre as três), mas Hermes, por solicitação
direta de Zeus, o convenceu a fazê-lo. As deusas ofereceram-lhe
vantagens (numa prática de suborno, como que a provar que não há
nada de novo sob o Sol ... ): Hera prometeu-lhe o império da
Ásia, Palas Atena ofereceu-lhe sabedoria e vitória em todos os
combates de que participasse e Afrodite assegurou-lhe o amor da
mulher mais bela do mundo a imortal Helena, a irmã gêmea de
Pólux que vimos há pouco, esposa de Menelau, rei de Esparta, e
pivô da Guerra de Tróia.
Mais uma vez, como bom libriano, Paris não se deixou seduzir
pelo poder e riqueza embutidos na promessa de Hera; igualmente
não o atraiu o poder de vencer batalhas nem tampouco uma imensa
sabedoria, ofertas de Palas Atena. Entretanto, a oferta de
Helena, mesmo sabendo-a casada, o seduziu - e a vencedora do
certame foi Afrodite. Páris, como muitos librianos, defrontou-se
com a necessidade de realizar um julgamento entre valores
pessoais e uma escolha ética, aos quais respondeu da forma
característica do signo. As escolhas librianas nos amores
costumam ser confusas e difíceis, e os muito freqüentes
triângulos amorosos, em geral, colocam o libriano em situações
de dilema e insegurança.
As hesitações e as comuns “tentativas de acerto” serão indicação
do imenso medo em fazer escolhas erradas - pelas conseqüências
que poderão advir -, assim como do forte impulso em ter todas as
coisas “equilibradas”, sem abrir mão de nenhuma em proveito de
outra. Se substituirmos Paris por uma mulher e as três deusas
por três pretendentes, teremos um padrão tipicamente libriano em
ação. Nesse “rearranjo”, no qual ela pode estar frente a três
“deuses”, ela pode ter como oferta a inteligência de Hermes, a
bravura e a coragem de Ares ou os prazeres do êxtase de Dioniso;
contudo, sempre haverá hesitação, pois, assim como para Páris, a
escolha por qualquer dos candidatos poderá ser seguida da raiva
ou do ressentimento dos outros dois.
A propensão libriana de ficar acuada entre duas ou mais
alternativas (seja profissional, afetiva ou espiritual a esfera
da escolha) parece indicar o padrão geral de desenvolvimento do
signo: por mais que incomode a divisão ou a desarmonia no
universo, por mais que isso comprometa sua forte necessidade de
harmonia e convivência “pacífica” entre todos os opostos, algo
dentro do libriano o força a dividir-se dolorosamente entre
esses mesmos opostos até descobrir a própria identidade através
de um profundo processo de valoração afetiva e escolha pessoal.
Porque a vida inicial do libriano costuma apresentar este
desafio: em geral nascida em uma casa onde pai e mãe estão por
se separar, só não o fazendo “por causa das crianças” ou “por
causa das aparências sociais”, a criança libriana é obrigada,
desde cedo, a apegar-se demais a ambos os pais - como se fosse
dela a responsabilidade (e a possibilidade) de mantê-los
juntos!Dessa forma, ao mesmo tempo em que lapida a “diplomacia”
natural, para conseguir sobreviver no mar tempestuoso das
emoções e sentimentos em desarmonia no lar paterno, dilata uma
imensa preocupação com a aparência e aceitação sociais, e
desenvolve uma raiva profunda por ambas as figuras parentais.
Raiva, entretanto, que reprime e agiganta profundamente dentro
de si com parte de sua Sombra, o que a de entrar em contato mais
pleno com outros sentimentos e emoções enquanto não a enfrentar
corajosamente.
Só então poderá descobrir seus reais valores pessoais, o que a
auxiliará nas decisões éticas, estéticas e de valores a que a
vida obriga e para as quais tem inimitável pendor.
Para isso, encontramos no mito de Tirésias a possibilidade de
utilização de preciosos recursos, frutos da “visão interior”.
Tirésias, ao atingir a idade da iniciação pela qual passava todo
jovem, subiu ao monte Citéron e viu duas serpentes em pleno ato
de cruzamento. Após separá-las, matou a fêmea e foi, por isso,
imediatamente transformado em mulher, permanecendo assim por
sete anos.
Após esse período, subindo o mesmo monte, deparou com cena
idêntica; dessa vez, matou o macho e recuperou seu sexo
original. Assim, como conhecia a vida interior dos dois sexos,
foi chamado por Zeus e Hera para decidir uma pendenga entre os
dois deuses: “Qual sexo tem mais prazer no amor, o homem ou a
mulher”, era a questão divina.O mito de Tirésias parece sugerir
que a aparente ambivalência sexual (no sentido mais amplo do
termo) verificada nos librianos tem raízes muito mais profundas
do que o excessivo apego aos pais na infância (que por si só já
seria uma explicação), pois ao entrar em contato direto com o
princípio feminino,
embora através da “morte” de seu lado masculino, e depois com o
princípio masculino, através da “morte” do seu lado feminino,
Tirésias obteve uma percepção dos opostos polares básicos da
vida e de como harmonizá-los através da visão interior: a
cegueira exterior forçou-o a voltar sua visão para o mundo
interior, o mundo do próprio Self, onde todas as respostas são
encontradas.
Descobrindo, graças a isso, que os verdadeiros valores que devem
ser harmonizados são os interiores - assim como o libriano tem
de aprender a se harmonizar com sua Anima (se um homem) ou seu
Animus (se uma mulher), antes de realizar melhores escolhas
afetivas entre valores diferentes na sua vida diária.