Sem limites, Zeus e
o centauro sagitariano
Tudo começou com Urano, o Céu, e sua esposa Géia, a Terra.
Desses dois primeiros deuses a mitologia grega fez descender
todos os outros (como ocorre no I Ching e entre os magos, os
sumérios, os egípcios e os germânicos, entre outras culturas).
Entre os filhos de Urano e Géia estavam os titãs e, entre estes,
Cronos (ou Saturno, para os romanos).
Pois bem: Cronos, que odiava de morte o próprio pai (Urano
jogava de volta à Terra todos os filhos que lhe nasciam,
temeroso de um dia ser suplantado por um deles), finalmente
acatou os pedidos de sua mãe para vingá-la: tomou uma foice de
ouro que a mãe lhe dera e quando Urano deitou-se sobre Géia para
mais uma vez fecundá-la, ele cortou-lhe os testículos e jogou-os
ao mar. Do sangue de Urano e de Géia nasceram as erínias, os
gigantes e as ninfas, e dos órgãos sexuais de Urano e do mar
nasceu Afrodite, envolta em espumas. Futuramente, Cronos liderou
a Revolta dos Titãs, da qual se tornou vencedor e assumiu o
trono divino: o rei perdera a fecundidade e teria de ser
substituído por outro, necessário à consolidação do reino.
Mas Cronos se converteu num déspota pior do que o pai. Temendo
ser também deposto, foi devorando um a um os filhos que teria de
Réia, sua irmã e esposa - ate que nasceu Zeus! Com esse filho,
Réia procedeu de uma maneira diferente: envolvendo uma pedra com
panos, entregou-a a Cronos, que a engoliu como se fosse o filho
recém-nascido: Réia havia fugido para a ilha de Creta, onde dera
à luz no monte Ida (o mesmo para onde Páris fora desterrado),
deixando depois o menino aos cuidados da "cabra" Amaltéia,
provavelmente uma ninfa.

Dessa ilha, Zeus, depois de crescido, iniciou a longa batalha
para tirar o poder supremo das mãos de Cronos. Inicialmente,
aconselhado por Métis, a Prudência, deu -lhe uma droga que o fez
vomitar todos os irmãos algum dia engolidos: Hades, Possêidon,
Hera, Deméter e Héstia. A seguir, apoiado pelos irmãos, derrotou
Cronos depois de dez anos de batalhas sangrentas. Por fim,
sorteou com seus dois irmãos a posse do reino conquistado: a
Hades coube o mundo subterrâneo, a Possêidon o mar e a Zeus o
céu e a superfície terrestre. Casado "legitimamente" com sua
irmã Hera, Zeus gerou Ares (Marte, para os romanos), Hebe,
Ilítia e Hefaístos; mas teve inúmeras consortes, entre deusas e
mortais, quase todas seduzidas ou violentadas, gerando um
sem-número de filhos e filhas.
E é com esse deus, fecundador universal, que começamos os mitos
de nosso nono signo. Antes de mais nada, cabe lembrar que Zeus
só pôde desenvolver o seu poder através da iniciativa da mãe,
Réia, o que indica a submissão do sagitariano, seja ele homem ou
mulher, por mais independente e masculino que pareça ser, ao
poder "feminino".
Se por um lado isso nos explica a predominância aparente e
compensatória do psiquismo masculino no sagitariano (assim como
a pessoa deste signo teve na infância o pai como modelo
principal, e sempre um pai "inatingível", motivo pelo qual "por
mais masculino que seja nunca chegará aos pés do pai"), nos
explica também que apenas depois de o sagitariano ter se ligado
"definitivamente" a seu psiquismo feminino (interior ou
projetivamente) é que ele começará de fato a frutificar.
Pois assim também foi com Zeus: somente casando-se com Hera é
que gerou Ares, o deus da vontade e da manifestação assertiva de
si mesmo. O casamento com Hera colocou Zeus em um permanente
vínculo com o feminino, por mais que vez ou outra quisesse
escapar desse vínculo indissolúvel - a cada amante de Zeus, Hera
reagia com brigas, punições, reprimendas ou vinganças, mas o
aceitava depois, para tudo recomeçar novamente.
Assim, não é de surpreender que o sagitariano "fuja ao
casamento", temendo ficar preso por laços e restrições mas
terminando por, cedo ou tarde, encontrar a sua Hera. Hera,
palavra grega que significa "guardiã ou conservadora", seduziu
Zeus com um cinto mágico, levando-o a fazer amor em segredo sob
o oceano, para escapar à raiva de Cronos, seu pai. E mais uma
vez essa sedução parece acompanhar a vida do sagitariano, pois e
comum uma gravidez não esperada o levar a unir-se à "sua Hera".
Por outro lado, como Junito Brandão afirma, (1986) "sem Hera,
Zeus não seria nada: a constante fricção interna provocada entre
o casamento indissolúvel e os inúmeros casos ilícitos de amor é
que mantinham Zeus ativo e cheio de vida".
Todavia, a repetida má percepção do sagitariano sobre a real
importância de sua mãe e, futuramente, do seu próprio princípio
feminino (vivido em si mesma, se mulher, ou projetivamente, se
homem) termina por levá-lo a uma hipervalorização de seus
componentes masculinos, até que "um acaso do destino" mostre o
verdadeiro caminho da integração interna (e externa): idealismo
e interesse abstrato (masculinos) pela vida necessitam andar
lado a lado com o realismo e o interesse pelos aspectos
concretos do cotidiano (femininos).
Outro mito diretamente ligado ao núcleo sagitariano é o do
centauro Quiron. Essa estranha figura, metade homem e metade
cavalo, é filho de Cronos e, assim, meio irmão de Zeus. Cronos
seduzira sua sobrinha Filira e fora surpreendido em pleno ato de
amor por sua esposa Réia; imediatamente se transformou em um
garanhão e saiu a galopar, levando Filira consigo. Dessa união
nasceu Quíron, meio homem e meio cavalo, representando assim,
numa só figura, a sabedoria instintiva e natural do corpo e o
acumulo de conhecimento da Humanidade.
Quíron vivia numa gruta no monte Pélon, onde ensinava música, a
arte da guerra e da caça, as leis e, sobretudo, a medicina. Foi
um famoso educador, tendo tido por discípulos alguns dos grandes
heróis, entre eles Jasão e Aquiles. Possuía também o dom da
profecia, mas teve um trágico desfecho: na tentativa de Hércules
de capturar o javali do monte Erimanto (um dos doze trabalhos do
herói), foi ferido acidentalmente no joelho (ou na coxa) por uma
das flechas envenenadas de Hércules.
Assim, apesar de mortalmente ferido - tais flechas haviam sido
embebidas no sangue da Hidra - Quíron não podia morrer por ser
imortal (filho de Cronos). Seu sofrimento foi profundo e longo,
até que Zeus pediu a um mortal que cedesse a Quíron o seu
"direito de morte".
Prometeu (o titã que roubou o fogo dos céus para entregá-lo aos
homens e, por isso, amargurava seus dias no Hades, eternamente
supliciado por um abutre que a cada dia lhe devorava o fígado)
cedeu ao centauro esse direito, e Quíron ascendeu aos céus para
a constelação de Sagitário, o Arqueiro, pois a flecha (sagitta,
em latim), simboliza a síntese humana de voar por sua própria
transformação, através do espírito mas a partir de sua condição
animal.
A ferida fora infligida na parte animal de Quíron e justamente
na perna, que o apoiava sobre a terra; em outras palavras, em
sua condição animal e não na de humano, assim como a hipertrofia
do núcleo masculino excessivamente preocupado com ideais e
noções de justiça costuma comprometer no sagitariano a
integridade de seu núcleo feminino de emoções e sentimentos.
No entanto, parece que a existência da "ferida" nas emoções e no
corpo, que são o elo com a realidade, termina sendo soterrada
pela atividade incessante do sagitariano em divertir-se e
divertir as pessoas, provando a si mesmo e a elas sua incrível
felicidade. Afinal, a pessoa deste signo "manifesta" Zeus, o
mais "ativo e fertilizador" dos deuses; ao fundo de sua
"caverna", entretanto, reside o velho sábio Quíron, ferido
mortalmente na perna mas sem chegar à morte.
Se é esse estado de eternamente ferido que dá ao sagitariano
condições para os vôos de espírito e intuição emocional que
certamente estão presentes no signo, quando não também para os
traços de otimismo ilusório ou verdadeiro fanatismo por uma
causa ou ideal, será também esse estado que o fará, algum dia,
retornar ao seu corpo animal e às leis da natureza, com o que
poderá integrar-se a si mesmo.
Então não dependerá mais, tanto quanto antes, de viver
projetivamente (através da "esposa" ou, se for uma mulher, de
outras) a natureza feminina à qual está ligado indissoluvelmente
mas à qual se opõe; da mesma forma, não precisará mais, como
etéreo e incorpóreo dos ideais antes, viver apenas no mundo de
justiça e de sabedoria, o qual, se não tiver uma base na
realidade material das emoções, não tem o menor sentido real.