A fuga de Virgem à
vida e o rapto de Perséfone
Em muitos lugares essas sacerdotisas eram prostitutas sagradas,
que se davam a estranhos e aos fiéis adoradores da deusa. O
termo "virgem" era claramente usado no sentido original de não
casada, pois essas mulheres eram comprometidas com o serviço da
deusa, e seu sexo, sua atração e seu amor não eram para ser
usados para sua própria satisfação, ou em função de propósitos
comuns da vida humana.
Não podiam unir-se a um marido, pois sua natureza de mulher era
dedicada a um propósito superior, o de trazer o poder
fertilizador da deusa para o contato efetivo com a vida dos
seres humanos".
Assim a psicóloga junguiana Maria Esther Harding (1985) se
expressa sobre as vestais, virgens sacerdotisas entregues aos
serviços da deusa Vesta, princípio universal de fecundidade e
reprodução.O mito de Virgem nos leva diretamente, entre outras
figuras mitológicas, a Perséfone (filha de Deméter, deusa da
agricultura e da fecundidade, Ceres para os romanos), raptada
por Hades, o deus do mundo subterrâneo e das almas dos mortos.
Deméter era, por toda a Grécia mas com variantes de região para
região, a deusa das colheitas e da fecundidade da Terra: filha
de Cronos e Réia, era essencialmente a deusa do trigo, tendo
ensinado aos homens a arte de semeá-lo, colhê-lo e, com ele,
fabricar o pão. Com Zeus, teve Perséfone, a "virgem eternamente
jovem".
Um dia, quando Perséfone (já mulher, mas eterna adolescente)
brincava entre as ninfas e suas tias Ártemis e Palas Atena, seu
tio Hades a raptou: decidido a transformá-la em sua esposa,
atraiu-a com um narciso ou um lírio (ali colocado pelo próprio
Zeus) e, saindo de seu reino em uma carruagem puxada por cavalos
negros, arrastou-a para o mundo subterrâneo.
Perséfone gritou, Deméter correu em seu auxilio, mas ao chegar
ali nada encontrou nem soube do que havia ocorrido. Por nove
dias e nove noites vagou com um archote, procurando-a, consumida
de saudade. Finalmente, Hélios, deus que tudo sabia,
cientificou-a do acontecido. Profundamente magoada com o
sucedido, Deméter recolheu-se ao interior de um santuário,
negando-se a retornar ao Olimpo e a permitir que a Terra fosse
fecundada, enquanto Perséfone não voltasse ao seu convívio.

Com isso a Terra ficou sem vegetação, as colheitas se
interromperam e o equilíbrio das estações foi rompido. Zeus,
intercedendo junto a Hades, solicitou-lhe que permitisse que sua
esposa voltasse à superfície, pois os homens corriam o risco do
desaparecimento por fome. Hades, por fim, concedeu que Perséfone
passasse oito meses por ano com sua mãe, no Olimpo, ficando os
outros quatro com seu marido no Reino do Mundo Subterrâneo.
Conseguindo a filha de volta, Deméter retornou ao Olimpo e a
Terra imediatamente cobriu-se de verde.Desse episódio mítico
nasceram os mistérios de Elêusis (cidade localizada a vinte
quilômetros de Atenas), cujo significado maior era o rapto de
Perséfone e sua descida ao Hades como morte simbólica, seguida
do retorno glorioso - como a semente que morre no seio da Terra
e, ao retornar, multiplica-se em muitos e novos frutos (como a
romã, fruta dedicada ao deus do subterrâneo).
O mito dos virginianos sempre nos remete a uma história da
relação "mãe e sua filha"; se for mãe-filho, este a
experimentará através de sua Anima ou de outras mulheres; como
diz Jung, (1977). "toda mãe contém em si sua filha e toda filha,
a sua mãe (...) A experiência consciente desses laços dá a
sensação de que sua vida se estende por gerações, o que dá a
impressão de imortalidade".
O virginiano nasce em um mundo amplamente dominado pela figura
materna, que vive na época uma fase crítica em relação à própria
sensualidade e corporalidade; assim, ao lidar com a criança
recém-nascida, essa mãe lhe transmite a sensação de seu corpo
não ser algo "gostoso de se tocar".
Isso cinde profundamente o virginiano (seja homem ou mulher),
pois a forte sensualidade presente nas pessoas que têm Virgem no
seu signo de nascimento se negam a manifestar-se futuramente.
Como resultado, o virginiano inclina-se profundamente à
racionalização e se esquiva de viver sua sensualidade e
corporalidade (a primeira dimensão vital concreta) às últimas
conseqüências, tentando manter-se imune aos apelos da Vida até o
momento em que a Vida, como Hades, se intromete e o obriga a
enfrentar a experiência vital de forma mais plena.
Isso explica a duplicidade encontrada com freqüência no signo,
perceptível no embate entre uma timidez e uma pudicícia muito
fortes, de um lado, e o que se poderia chamar de comportamento
sensual não ortodoxo, de outro.
Outra figura mitológica que encontramos ligada a este signo e
que nos ajuda bastante a entender os aparentes paradoxos vividos
pelo virginiano é a da deusa Astréia.
Que representava o principio da justiça e da Harmonia.
Essa deusa, filha de Zeus, vivia na Terra entre os homens, numa
época em que a Humanidade não conhecia desavenças nem desordens,
ensinando a obediência às leis naturais.
Com a gradual corrupção humana, entretanto, Astréia irritou-se
com a Humanidade e deixou a Terra, indo para o Olimpo e
transformando-se na constelação de Virgo.
Ela simbolizava, assim, a ordem intrínseca da natureza, e sua
irritação com a Humanidade é o símbolo mítico do profundo
desgosto virginiano por desordem, caos e desperdício de tempo ou
recursos: todas as coisas têm seu lugar certo, encadeadas no
tempo, em ciclos naturais de rara harmonia, donde também a
inclinação virginiana a ritos de justiça e reimplantação da
ordem algum dia profanada e o seu extremo criticismo a tudo
aquilo que lhe parece fora de lugar ou em desarmonia.
Em sua fase imatura, o virginiano (ou a virginiana) mantém-se
distante da própria capacidade de amar e de viver; tendo sido
submetida a muitas críticas no lar materno e ao afastamento das
próprias sensações corporais, a pessoa duvida de si mesma e
inclina-se poderosamente a relações de muito trabalho e pouca
paga, - quer do ponto de vista profissional, quer do ponto de
vista emocional-afetivo. A força da deusa, porém, pressiona por
manifestar-se e o virginiano muitas vezes termina por viver em
sua vida o papel de Sereia, envolvida num ritual narcíseco de
amor por si mesma - a deusa síria Astargates, em muitos aspectos
semelhante a Deméter, era simbolizada como um ser com corpo de
mulher e pernas em rabo de peixe.(Não custa lembrar que as
sereias eram figuras míticas que se dedicavam a dois prazeres:
observar-se no espelho das águas, num ritual de amor narcíseo, e
cantar para os viajantes que por elas passavam, para que estes,
não conscientes dos rochedos onde as sereias se postavam,
naufragassem na tentativa de amá-las...).
Mas, como lembra Maria Esther Harding ao se referir à inclinação
feminina nos mistérios do próprio corpo, "quando ela renuncia a
suas pretensões pessoais, a energia e a libido, que a princípio
tinham propósitos individualistas, fluem para um lado feminino
verdadeiro - para o qual ela fez o sacrifício (...) Dessa
experiência nasce o poder de amar o outro.
Antes de submeter-se a tal iniciação, seu amor não é mais do que
desejo. Ela não pode mesmo ver a diferença entre "eu te amo" e
"eu quero que me ames'" não pode diferenciar entre "eu te amo" e
"quero a satisfação que podes me dar". Quando tiver passado por
uma experiência interior análoga à antiga prostituição no
templo, os elementos do desejo e da possessividade terão sido
abandonados, transmutados através da apreciação de que sua
sexualidade e seu instinto são expressões de uma força divina,
cuja experiência tem um valor inestimável, bastante distantes de
suas satisfações no plano humano.
É impossível explicar a transformação que acontece quando o amor
instintivo é aceito e assimilado dessa maneira, continua a
psicóloga, "pois trata-se de uma dessas mudanças misteriosas e
inexplicáveis que pertencem ao reino psicológico, o reino onde o
físico e o espiritual se encontram ( ... ) No entanto, é
claramente observável que, através de uma experiência desse
tipo, o amor emerge, um amor que vê a situação da outra pessoa e
pode altruisticamente simpatizar-se e apreciar".
"Afirma-se que a deusa Lua, em seu papel de prostituta, possui
essa espécie de amor", finaliza Maria Esther Harding (1985). "Ishtar
(deusa babilônica análoga a Deméter/Perséfone, com seus
múltiplos selos e seu papel de fecundadora de colheitas e da
Natureza) apresenta-se assim: "Uma prostituta compassiva sou
eu".
Compaixão também é uma das principais características da Virgem
Maria, que, embora nunca tenha sido considerada uma prostituta
sagrada, tinha certamente experimentado uma submissão
correspondente, através da qual ganhou seu título de Virgem. O
amor que nasce da iniciação no templo tem a característica
maternal: as lendas e os mitos são unânimes em afirmar que a
deusa, como virgem, concebe através de uma concepção imaculada.
O resultado do hierosgarnos (casamento sagrado) é a virgem
engravidar; seu filho é o Herói , o Salvador, o Redentor. É o
deus-homem, participando tanto da natureza do homem como da de
deus.
Psicologicamente, essa criança representa o nascimento de uma
nova individualidade, que substitui o Ego da mulher, sacrificado
através do ritual do templo. O mesmo vale para o ritual
masculino virginiano, quando ele se integra a si mesmo através
da maturação de seu núcleo feminino sensual e do abandono das
expectativas coletivas em prol da força da própria vida que
corre em suas velas. Deixa de fazer "o que é aceitável" (o que
sempre exige muita autocrítica), abandona a compulsão pelo
"seguro" e mergulha nas profundezas de si mesmo, isolado e
solitário - de onde renascerá como filho natural de seu próprio
"casamento interior".
Porque se "maternidade", no sentido mais amplo da palavra, é dar
à luz o fruto da própria capacidade criativa, então esse mito se
aplica a virginianos de ambos os sexos, pois todos são
verdadeiramente compelidos a mostrar publicamente, de forma
concreta e expressiva, de quanto são capazes.
Ao fazer isso, "matam" a Sereia que vive dentro de si mesmos,
pois a realização material elimina qualquer possibilidade de
perfeccionismo - em função da qual existia o criticismo
exacerbado em relação a si e aos outros.
Com o desaparecimento do narcisismo, em função da aceitação do
outro como pólo essencial para a plena realização da identidade
(já que a vivência de sensualidade não consegue se dar
isoladamente), a possibilidade de amar se manifesta de fato -
seja esse outro quem for, como o faria a sacerdotisa da deusa,
pois o núcleo mítico de Virgem não reconhece a submissão a
"marido" ou "mulher" como norma ou fonte principal do encontro
consigo mesmo.