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Sálù bá
Nàná Burúkú !
( Nós refugiaremos com Nàná
da morte ruím )

Nàná é um
vodun (orixá) da nação Gêge, de tempos imemoriais. Está
associada aos mitos da criação da Terra, sendo a precursora
de todas as divindades que têm o poder de gerar a vida. É o
lado feminino dos criadores do mundo.
Grande Senhora das terras molhadas e fecundas, com a qual
foram criados todos os seres, reina na lama, que formou a
Terra, nas águas paradas e pântanos.
Ao mesmo tempo em que dá vida às criaturas, faz com que
retornem ao seu elemento de origem para, mais tarde,
renascerem na Terra, formando o ciclo da vida e da morte. Por
isso, nós acreditamos que o corpo, após a morte, deve ser
devolvido à terra, de onde ele saiu um dia.
Nanan, pelo fato de ser um dos primeiros orixás criados por
Olorun, é caracterizada como uma anciã, ou uma avó.
Novamente, caímos no erro de comparar uma energia
sobrenatural, que é o orixá, com simples mortais,
atribuindo-lhes uma idade cronológica humana.
É guardiã do reinado dos eguns e ancestrais, assim como seu
filho Obaluayê, usando o ibirin (espécie de bastão ritual
com a ponta curva, confeccionado com palha da costa e búzios)
como elemento controlador e genitor.
Sua existência vem de tempos remotos, anteriores à
descoberta do ferro, por isso, em seus rituais, não devem ser
utilizados objetos cortantes de metal.
Nunca devemos evocá-la sem um motivo muito forte. Mesmo seus
próprios filhos. É um orixá muito poderoso e de tendência
devastadora, quando provocado. Seus preceitos são
extremamente complexos e ricos em detalhes. Se o babalorixá não
tiver perícia e conhecimento, poderá cometer erros que serão
fatais, tanto para ele como para o iniciado. Raramente um
filho de Nanan é incorporado por sua energia, sendo que suas
aparições nos terreiros têm um intervalo mínimo de três
anos. Quando alguém a incorpora, deve-se interromper o xirê
para saudá-la em especial. Coloca-se, em suas mãos, um
cajado de ponta curva, recoberto de búzios, e uma base de
palha desfiada, com o qual ela insinua uma varredura do
ambiente, limpando-o de todas as más influências. Se a noviça
não estiver paramentada com as roupas rituais, amarra-se um
torço na cabeça, juntamente com algumas folhas especiais de
Nanan (mamona, flor da noite, etc.), recobrindo os olhos. Os
voduns Gêges não costumam revelar seu rosto.
Os fundamentos necessários para louvar esse orixá pertencem
à cultura Gêge. Mesmo que existam filhos de Nanan em outras
nações, todos os preceitos devem ser feitos dentro dos
rituais desta nação.
Nanan vive nas madrugadas, quando o orvalho umedece a terra.
Por isso, só aceita oferendas em sua homenagem após as três
horas da manhã, quando o sol ainda não se levantou. O
babalorixá não deve deixar esses ebós à mostra, e deverá
abandonar o local dos rituais rapidamente, pois existe o risco
de aparecerem cobras perto da comida.
Os búzios também fazem parte de seus paramentos, ornando seu
cajado, o ibiri e o brajá.

(Do livro "Lendas Africanas dos Orixás de Pierre Fatumbi
Verger e Carybé - Editora Currupio)
Disputa entre NANÃ BURUKU e OGUM
Nanã Buruku é uma velhíssima divindade das águas, vinda de
muito longe e há muito tempo.
Ogum é um poderoso chefe guerreiro que anda, sempre, à
frente dos outros Imalés.
Eles vão, um dia, a uma reunião.
É a reunião dos duzentos Imalés da direita e dos
quatrocentos Imalés da esquerda.
Eles discutem sobre seus poderes.
Eles falam muito sobre obatalá, aquele que criou os seres
humanos.
Eles falam sobre Orunmilá, o senhor do destino dos homens.
Eles falam sobre Exú: "Ah! É um importante
mensageiro!"
Eles falam muita coisa a respeito de Ogum.
Eles dizem: "É graças a seus instrumentos que nós
podemos viver. Declaramos que é o mais importante entre nós!"
Nanã Buruku contesta então: "Não digam isto. Que
importância tem, então, os trabalhos que ele realiza?"
Os demais orixás respondem: "É graças a seus
instrumentos que trabalhamos pelo nosso alimento. É graças a
seus instrumentos que cultivamos os campos. São eles que
utilizamos para esquartejar."
Nanã conclui que não renderá homenagem a Ogum. "Por
que não haverá um outro Imalé mais importante?"
Ogum diz: "Ah! Ah! Considerando que todos os outros Imalés
me rendem homenagem, me parece justo, Nanã, que você também
o faça."
Nanã responde que não reconhece sua superioridade. Ambos
discutem assim por muito tempo.
Ogum perguntando: "Voce pretende que eu não seja
indispensável?"
Nanã garatindo que isto ela podia afirmar dez vezes.
Ogum diz então: "Muito bem! Voce vai saber que eu sou
indispensável para todas as coisas."
Nanã, por sua vez, declara que, a partir daquele dia, ela não
utilizará absolutamente nada fabricado por Ogum e poderá,
ainda assim, tudo realizar.
Ogum questiona: "Como voce fará? Voce não sabe que sou
o proprietário de todos os metais? Estanho, chumbo, ferro,
cobre. Eu os possuo todos."
Os filhos de Nanã eram caçadores. Para matar um animal, eles
passaram a se servir de um pedaço de pau, afiado em forma de
faca, para o esquartejar.
Os animais oferecidos a Nanã são mortos e decepados com
instrumentos de madeira.
Não pode ser utilizada a faca de metal para cortar sua carne,
por causa da disputa que, desde aquele dia, opôs Ogum a Nanã.
ARQUÉTIPO
(Do livro "Orixás - Pierre Fatumbi Verger - Editora
Corrupio")
Nanã Buruku é o arquétipo das pessoas que agem com calma,
benevolência, dignidade e gentileza. Das pessoas lentas no
cumprimento de seus trabalhos e que julgam ter a eternidade à
sua frente para acabar seus afazeres. Elas gostam das crianças
e educam-nas, talvez, com excesso de doçura e mansidão, pois
têm tendência a se comportarem com a indulgência dos avós.
Agem com segurança e majestade. Suas reações bem
equilibradas e a pertinência de suas decisões mantêm-nas
sempre no caminho da sabedoria e da justiça.
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